Índice do artigo▾
A Comissão Europeia apresentou em novembro de 2025 uma recomendação para que os Estados-membros inscrevam automaticamente os trabalhadores em pensões complementares. Pode vir a mudar a forma como os portugueses poupam para a reforma. Estas são as perguntas e respostas para perceberes como funciona.
Porque propõe Bruxelas a inscrição automática?
Por causa da demografia. Nos próximos 25 anos, a população ativa europeia deverá cair 22%, de 264 milhões em 2022 para 207 milhões em 2050, enquanto o número de reformados aumenta 32 milhões. Este choque vai pressionar as pensões públicas, com as taxas de substituição a cair bastante nas próximas décadas, segundo os relatórios Ageing Report da Comissão.
"O auto-enrolment provou ser a forma mais eficaz de aumentar a cobertura de pensões complementares", diz a proposta, que cita o Reino Unido, onde a cobertura subiu de 45% para 74%, e a Nova Zelândia.
A medida integra a União da Poupança e dos Investimentos e tem um duplo objetivo: garantir rendimentos adequados na reforma e mobilizar parte dos 10 biliões de euros que os europeus têm em contas bancárias para investimentos produtivos.
Como funciona?
Faz as tuas contas no simulador Complemento Reforma →
Os trabalhadores são inscritos automaticamente num plano de pensões complementar, com liberdade para sair. Em vez de teres de dar o passo para aderir, a adesão é automática, mas continua a ser voluntária. Os modelos de referência são dois:
- —Reino Unido: desde 2012, as empresas são obrigadas a inscrever todos os trabalhadores elegíveis. O trabalhador contribui com 5% do salário (entre 6.240 e 50.270 libras anuais), a empresa com 3% e há um benefício fiscal de 1%, num total de 8%.
- —Nova Zelândia: o KiwiSaver, lançado em 2007, inscreve os novos trabalhadores permanentes entre os 18 e os 65 anos no primeiro dia de trabalho. Podem contribuir com 3%, 4%, 6%, 8% ou 10% do salário bruto (3% se não escolherem). A empresa contribui obrigatoriamente com 3%, a subir para 3,5% em 2026 e 4% em 2028.
Portugal é obrigado a adotar este sistema?
Não. É uma recomendação, não uma diretiva. Cada país decide se avança e em que moldes. Se o Governo português quiser, terá de legislar. A Irlanda arrancou com o seu sistema, o My Future Fund, em janeiro de 2026, e Itália e Polónia já têm sistemas semelhantes.
Quem fica abrangido?
Bruxelas recomenda a cobertura mais ampla possível. Nos exemplos internacionais, a elegibilidade varia. No Reino Unido, abrange trabalhadores entre os 22 anos e a idade da reforma com rendimentos acima de 10 mil libras por ano. Na Nova Zelândia, novos trabalhadores permanentes entre os 18 e os 65 anos. Na Irlanda, trabalhadores entre os 23 e os 60 anos que ganhem mais de 20 mil euros.
Quem contribui?
Não és só tu, e essa é uma das grandes vantagens. O modelo típico tem três partes: trabalhador, empresa e Estado.
- —Reino Unido: mínimo de 8% (5% do trabalhador, 3% da empresa e 1% de benefício fiscal).
- —Nova Zelândia: pelo menos 3% de cada lado, com a parte da empresa a subir para 4% até 2028.
- —Irlanda: começa com 1,5% do trabalhador e 1,5% da empresa, até um salário de 80 mil euros, mais 0,5% do Estado, e sobe gradualmente até 6%, 6% e 2% ao longo de dez anos.
Em todos estes sistemas podes contribuir acima do mínimo, e a Comissão recomenda que essa possibilidade exista.
Qual é o papel do Estado?
Bruxelas incentiva os países a dar benefícios fiscais ou subsídios diretos, sobretudo a quem ganha menos e aos mais jovens. No Reino Unido, o benefício fiscal equivale a 20% das contribuições (mais nos escalões superiores). Na Irlanda, o Estado dá 1 euro por cada 3 euros que o trabalhador põe, o equivalente a 25%, em vez de um benefício fiscal. A Comissão sugere ainda subsídios fixos para quem tem baixos rendimentos e créditos de pensão por períodos de cuidados a familiares, para reduzir a diferença de pensões entre homens e mulheres.
Onde fica o dinheiro e como é investido?
A Comissão recomenda que haja sempre uma opção por defeito, para não sobrecarregar os trabalhadores com decisões complexas. E recomenda estratégias de "ciclo de vida", que reduzem o risco automaticamente à medida que te aproximas da reforma, passando de ações para obrigações e liquidez.
No Reino Unido, cada empresa escolhe um esquema qualificado com uma opção por defeito, normalmente de ciclo de vida. Na Nova Zelândia, há cerca de 30 fornecedores e centenas de fundos, com perfis conservador, equilibrado, crescimento e agressivo. Na Irlanda, o fundo é gerido centralmente, com quatro perfis de risco e alocação automática por idade.
Posso mudar de fundo ou levar a poupança se mudar de emprego?
Sim. A portabilidade é essencial. No Reino Unido, a pensão é tua mesmo que mudes de emprego: podes manter, transferir ou juntar várias numa só. Na Nova Zelândia, a poupança acompanha o trabalhador automaticamente e é possível mudar de fornecedor a qualquer momento, em cerca de duas semanas. Na Irlanda, a poupança segue o trabalhador entre empregos através do número de segurança social.
Posso sair quando quiser?
A liberdade de sair é um pilar do modelo. No Reino Unido, podes sair a qualquer momento, mas és reinscrito automaticamente a cada três anos. Na Nova Zelândia, há uma janela entre o 14.º e o 56.º dia de emprego para sair sem custos. Na Irlanda, entre o 6.º e o 8.º mês.
Em todos os casos, quem sai recebe as suas contribuições de volta, mas as da empresa e do Estado ficam no fundo.
E se ficar desempregado?
As contribuições ficam suspensas até voltares a trabalhar, mas o dinheiro continua investido. No Reino Unido, és reinscrito automaticamente com o novo empregador. Na Nova Zelândia, podes pedir uma suspensão entre três meses e cinco anos. Na Irlanda, quem tem contratos atípicos ou rendimentos irregulares pode ter regras mais flexíveis.
Quando posso aceder ao dinheiro?
Normalmente, perto da idade da reforma. No Reino Unido, a partir dos 55 anos (57 a partir de 2028), com 25% livres de imposto. Na Nova Zelândia, aos 65 anos, com exceções para a compra da primeira casa ou dificuldades financeiras graves. Na Irlanda, na idade da pensão estatal, hoje 66 anos, com até 25% livres de imposto.
Quem supervisiona?
A Comissão sublinha a importância de uma supervisão robusta. No Reino Unido, o regulador das pensões controla a qualidade e os custos dos esquemas. Na Nova Zelândia, os esquemas por defeito têm taxas máximas reguladas e são supervisionados pela autoridade dos mercados financeiros. Na Irlanda, a entidade gestora tem poderes para garantir uma boa relação entre custo e benefício.
Vale a pena aderir ou é melhor um PPR tradicional?
Depende de cada caso, mas a inscrição automática tem vantagens importantes: a contribuição obrigatória da empresa, que é na prática dinheiro grátis, um processo simples, custos geralmente mais baixos por causa da escala e incentivos do Estado.
O ideal é combinar os dois: aproveitar a contribuição da empresa e o incentivo público e, se puderes, completar com um produto escolhido por ti para reforçar o complemento de reforma. O fundamental é poupar e investir a longo prazo.
Faz as tuas contas no simulador Complemento Reforma →
Termos neste artigo
Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.
Escrito por Luís Leitão. Este artigo foi publicado originalmente no ECO a 24 de novembro de 2025.
Ler o artigo original no ECO →