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Deepfakes, IA e burlões são o novo pesadelo do teu dinheiro

Vozes clonadas por inteligência artificial, identidades falsas e plataformas de investimento clonadas são uma ameaça real e crescente. A OCDE avisa que a literacia financeira é a principal defesa. Fica a saber o que está em jogo e quais são os teus direitos se fores vítima.

Luís Leitão·10 de março de 2026·Publicado no ECO
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Imagina que recebes uma chamada do teu banco. A voz é familiar, o número é o verdadeiro e a mensagem é urgente: há uma transação suspeita na tua conta e tens de agir já. O problema é que se trata de uma burla sofisticada. A voz foi criada por inteligência artificial (IA), o número foi clonado e, quando percebes o que aconteceu, o dinheiro já saiu da conta.

Este cenário, que há poucos anos parecia ficção científica, é hoje uma realidade crescente, documentada pela OCDE. E está longe de ser o único para quem usa produtos financeiros, incluindo em Portugal.

O relatório "Consumer Finance Risk Monitor 2026", feito com a perspetiva de 107 governos e autoridades financeiras de 60 países, pinta um retrato preocupante. A digitalização acelerada, a inflação, o endividamento das famílias e os comportamentos desleais de alguns prestadores de serviços financeiros formam um cocktail de vulnerabilidades que a OCDE considera urgente combater.

As burlas digitais são a maior ameaça

A conclusão mais forte do relatório é que as burlas digitais são, de longe, a maior ameaça. Para 85% das jurisdições inquiridas, são o principal risco, e a esmagadora maioria espera que continue a crescer em 2026. Entre 2024 e 2025, a incidência aumentou em 69% dos países. Os números dão escala ao problema:

  • —Na Austrália, os consumidores perderam 2 mil milhões de dólares australianos só em 2024.
  • —Em Singapura, perderam cerca de 456 milhões de dólares de Singapura na primeira metade de 2025.
  • —No Canadá, as perdas quase quadruplicaram entre 2020 e 2024, de 165 para 645 milhões de dólares canadianos.

Os métodos mais usados são o phishing, o vishing e o smishing, técnicas que enganam as vítimas por e-mail, telefone ou SMS. Seguem-se as fraudes em que os criminosos se fazem passar por bancos, consultores financeiros ou outras entidades.

A IA mudou as regras do jogo

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"A digitalização está a intensificar o rápido aumento e a sofisticação das fraudes e esquemas digitais, incluindo ataques de engenharia social, roubo de identidade, deepfakes e conteúdo fraudulento gerado por inteligência artificial", sublinha a OCDE.

Já não basta desconfiar de e-mails mal escritos ou de pedidos estranhos. A IA permite imitar vozes com precisão, criar videochamadas falsas convincentes e fabricar identidades praticamente indistinguíveis das reais. Em Itália, as autoridades alertaram que a IA generativa é "cada vez mais utilizada para atrair investidores para esquemas de fraude". Na Irlanda, surgiram plataformas de negociação falsas e empresas de investimento clonadas.

A mesma tecnologia também serve para defender. Segundo o , 62% das instituições financeiras avaliadas já usam IA para detetar fraudes. Mas os consumidores mais vulneráveis ficam muitas vezes do lado errado desta corrida.

O que diz a justiça europeia se fores vítima

A proteção jurídica das vítimas também está a mudar. Num caso que chegou ao Tribunal de Justiça da União Europeia, uma cliente de um banco polaco clicou numa ligação falsa que imitava o site do banco, partilhou os dados e viu a conta esvaziada por um pagamento não autorizado. O banco recusou o reembolso, alegando negligência grosseira.

O advogado-geral Athanasios Rantos emitiu uma opinião de referência: o direito europeu obriga o banco a reembolsar imediatamente o valor de uma operação não autorizada, a não ser que tenha motivos fundados para suspeitar de fraude do próprio cliente, e esses motivos têm de ser comunicados por escrito à autoridade nacional.

O reembolso não é definitivo. Se o banco provar em tribunal que agiste com dolo ou negligência grosseira, pode pedir a devolução. Mas o ónus da prova é do banco, não teu. As conclusões do advogado-geral não vinculam o tribunal, mas as instâncias nacionais tendem a seguir as orientações europeias, o que pode ter implicações diretas para as vítimas portuguesas.

As três fragilidades que alimentam as burlas

O relatório identifica três vulnerabilidades que tornam os consumidores mais expostos a todos os riscos financeiros:

  • —Baixa literacia financeira, apontada por 81% das jurisdições como o principal risco. Quem não percebe o que está a assinar, não sabe avaliar o custo real de um crédito ou não distingue um investimento legítimo de uma fraude fica muito mais exposto.
  • —Endividamento elevado, referido por 63%. A expansão do crédito digital, como os empréstimos online, o "compre agora, pague depois" (BNPL) e o microcrédito, facilita o acesso, mas pode "obscurecer o verdadeiro custo do endividamento", avisa a OCDE.
  • —Baixa capacidade digital, selecionada por 44%. O relatório cita Portugal: "Portugal observou que os baixos níveis de capacidade digital afetam os consumidores menos familiarizados com a tecnologia no acesso e gestão de produtos e serviços financeiros online, incluindo banca de retalho e investimentos."

Juntas, estas três fragilidades são, segundo a OCDE, explosivas.

O perigo que vem de dentro

Se as burlas externas são a ameaça mais visível, os comportamentos inadequados dos próprios prestadores de serviços financeiros são a mais insidiosa, porque nascem dentro do sistema que te devia proteger.

O risco mais apontado (44% das jurisdições) é a falta de informação eficaz: os consumidores não recebem o que precisam para decidir, ou recebem-no de forma tão complexa que o efeito é o mesmo. Em Portugal, as autoridades do setor segurador reconheceram a necessidade de melhorar a informação sobre coberturas e exclusões, e o reforçou as regras de informação na venda de produtos bancários por canais digitais.

O segundo (39%) é o aconselhamento deficiente: intermediários que não verificam se o produto que recomendam é adequado ao teu perfil. O fenómeno dos finfluencers, que aconselham nas redes sociais muitas vezes sem qualquer habilitação, deu-lhe uma nova dimensão. Em Portugal, a CMVM lembrou em março de 2025 que estas atividades estão sujeitas à regulamentação em vigor.

O terceiro (33%) são as práticas de venda desonestas, como publicidade enganosa, cobranças injustas e a venda forçada de produtos adicionais, sobretudo seguros, quando contratas um produto principal.

Como te proteger

O relatório deixa pistas claras para o dia a dia:

  • —Desconfia da urgência. Um banco nunca te pede códigos, palavras-passe ou transferências "para proteger a conta" por telefone, SMS ou e-mail.
  • —Desliga e liga tu. Se recebes uma chamada suspeita, desliga e liga para o número oficial do banco, que está no cartão ou no site.
  • —Confirma quem te aconselha. Antes de investir, verifica se a entidade está registada na CMVM, no Banco de Portugal ou na ASF.
  • —Lê a informação obrigatória. O Documento de Informação Fundamental e a mostram custos, riscos e o supervisor responsável. Se não percebes um produto, não o compres.
  • —Reage depressa. Se fores vítima, contacta o banco de imediato, pede o reembolso por escrito e apresenta queixa no livro de reclamações eletrónico e às autoridades.

Num mundo onde a IA pode imitar a voz do teu gestor de conta e um clique pode comprometer a poupança de uma vida, a literacia financeira deixou de ser uma vantagem e passou a ser uma linha de defesa essencial.

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Termos neste artigo

Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.

Escrito por Luís Leitão. Este artigo foi publicado originalmente no ECO a 10 de março de 2026.

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