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Durante décadas, o acesso aos mercados privados (empresas não cotadas, infraestruturas e crédito privado) esteve reservado a investidores institucionais, fundos de pensões e fortunas avultadas. Agora, corretoras e gestoras de ativos estão a abrir as portas deste universo aos aforradores e investidores europeus.
A Trade Republic, uma das maiores corretoras europeias, foi a primeira plataforma destinada a investidores de retalho a oferecer acesso a investimentos em private equity geridos pela BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo, sem montantes mínimos e com um euro de investimento inicial. Mas a Trade Republic não está sozinha neste mercado: a Scalable Capital, corretora alemã, disponibiliza o BlackRock Private Equity Fund (ELTIF) com montantes mínimos de 10 mil euros, através de planos de poupança ou investimento direto.
Infraestruturas e Competição Geopolítica na Europa
As infraestruturas europeias são atualmente o campo de batalha de uma competição geopolítica silenciosa. A União Europeia mobilizou mais de 350 mil milhões de euros através de dois programas -- Invest AI (200 mil milhões) e EU AI Champions (150 mil milhões) -- para triplicar a sua capacidade de data centers até 2032, um investimento astronómico que reflete a compreensão de que a inteligência artificial não é apenas um fenómeno de software, mas que exige ecossistemas físicos massivos para funcionar.
O Brookfield AI Data Center, em Estocolmo, representa a escala destes projetos: um investimento de 10 mil milhões de dólares, com capacidade de 75 gigawatts (GW) e um cronograma de 10 a 15 anos. Portugal também entra nesta corrida com o Start Campus Data Hub, em Sines, um investimento de quase 10 mil milhões de dólares com capacidade de 1,2 GW. Espanha, Itália, Finlândia – todas as principais economias europeias estão a mobilizar capital privado para construir a infraestrutura digital que o continente necessita.
Mas não é apenas digitalmente que a infraestrutura está a crescer. A transição energética continua a ser um motor poderoso. As infraestruturas de energia renovável europeia representam uma base de aproximadamente 600 mil milhões de euros, com expectativas de mais que duplicar para cerca de 1,3 biliões de euros no início da década de 2030, segundo dados da Schroders. Os projetos de solar, eólica, biomassa, biogás e hidroelétrica estão a remodelar o panorama energético europeu, e todos são financiados através de mercados privados.
Ao contrário das ações ou obrigações cotadas, que podem ser vendidas em segundos, os investimentos em mercados privados são intrinsecamente ilíquidos. Os ELTIF, por exemplo, podem ter períodos mínimos de detenção e resgates limitados.
O crédito privado, uma das componentes dos mercados privados, também está em expansão. Os ativos sob gestão globais focados na Europa deverão exceder os 450 mil milhões de euros até ao final do ano e ultrapassar todas as outras regiões até ao final da década, apontam os dados da Blackrock.
Os bancos tradicionais, pressionados pela regulação e pela preferência por empréstimos de menor risco, abandonaram parcialmente o segmento de médias e grandes empresas privadas em muitos países europeus. O crédito privado preencheu este vazio, oferecendo financiamento mais rápido, mais flexível e, frequentemente, com melhores condições que os bancos convencionais.
A onda em redor dos private markets é de tal ordem colossal que Larry Fink, o conhecido CEO da Blackrock, propôs recentemente o abandono da "sagrada" alocação 60/40 que, durante décadas, definiu o padrão nas carteiras de investimento globais.
Na sua carta anual de 2025 aos investidores, Larry Fink sugeriu uma nova configuração de portefólio para 50/30/20. Nesta nova alocação, mantêm-se 50% em ações e reduzem-se as obrigações para 30%, mas o essencial -- e isto é a grande novidade -- é reservar 20% para ativos alternativos, incluindo infraestruturas, imobiliário, crédito privado e outras classes de investimento privado.
A mudança reflete o reconhecimento de que os ativos alternativos não são apenas um complemento de nicho, mas uma componente estrutural de um portefólio moderno.
"O portefólio 60/40 tradicional pode não ser o padrão do futuro," argumentou Fink, sugerindo que a nova alocação 50/30/20 oferece "benefícios potenciais como proteção contra a inflação, estabilidade e retornos reforçados".
A BlackRock não apenas sugeriu esta mudança, como começou a implementá-la através de uma série de aquisições estratégicas nos últimos anos, com as empresas de tecnologia de mercados privados Global Infrastructure Partners, Preqin e HPS Investment Partners.
Este movimento não é isolado. Fundos patrimoniais (endowments) e fundações já tinham começado a afastar-se dos modelos 60/40 há décadas para aumentar as suas alocações em mercados privados. Agora, a recomendação vem do topo da maior gestora mundial de ativos, sinalizando um realinhamento tectónico na forma como investidores institucionais, e potencialmente uma nova geração de pequenos investidores, veem a composição ideal de uma carteira.
Porta de entrada dos pequenos investidores
Num contexto de grande ebulição dos private markets, surgem os ELTIF como o veículo preferencial para democratizar o acesso aos mercados privados junto dos pequenos investidores. Criados pela Comissão Europeia em 2015 e significativamente simplificados com o ELTIF 2.0 em janeiro de 2024, estes fundos foram desenhados para permitir que investidores individuais acedam a oportunidades de investimento privado que necessitam de capital de longo prazo, como infraestruturas, imobiliário e pequenas e médias empresas.
"Acreditamos que uma gama mais ampla de investidores deve poder beneficiar dos retornos robustos e dos benefícios de diversificação que o investimento em ativos privados pode proporcionar," afirmou Karine Szenberg, responsável pela Europa da Schroders, há dois anos, por ocasião do lançamento do primeiro ELTIF da gestora. A Schroders Capital disponibiliza agora dois ELTIF de private equity, focados em investimentos de buyout e crescimento de empresas de pequena e média dimensão, principalmente na Europa.
"À medida que os investimentos alternativos, como o private equity, se tornam cada vez mais relevantes para a participação no crescimento económico, tornamo-los agora acessíveis aos investidores," referiu Julius Weller, vice-presidente de Broker na Scalable Capital.
A regulamentação ELTIF 2.0 trouxe melhorias significativas ao mercado, permitindo expandir os ativos elegíveis, reduziu os limiares de capital, aumentou os limites de endividamento e tornou os ELTIF mais acessíveis aos investidores de retalho, aumentando simultaneamente a flexibilidade para os gestores.
Além disso, esta reforma facilitou investimentos em ativos reais, unidades de participação de fundos de investimento e obrigações verdes, juntamente com ajustes nos limites de diversificação e concentração. Mas se o potencial dos mercados privados é elevado, os riscos não são menores. E aqui reside a grande questão para os pequenos investidores: até que ponto compreendem realmente no que estão a investir?
Iliquidez: Esta é a primeira e mais relevante característica. Ao contrário das ações ou obrigações cotadas, que podem ser vendidas em segundos, os investimentos em mercados privados são intrinsecamente ilíquidos. Os ELTIF, por exemplo, podem ter períodos mínimos de detenção e resgates limitados. No caso do BlackRock Private Equity Fund disponível através da Scalable Capital, não há resgates até 30 de junho de 2027, sendo trimestrais a partir dessa data, e limitados a 5% do valor líquido do fundo por trimestre. A Trade Republic oferece a possibilidade de venda mensal através de um marketplace interno, mas isso contrasta com os habituais mínimos de 10 mil euros exigidos pelos fundos e janelas de resgate trimestrais. Para um investidor que possa necessitar do dinheiro a curto prazo, esta característica pode ser problemática.
Complexidade e opacidade: Os mercados privados são menos transparentes do que os mercados públicos. As avaliações são realizadas com menos frequência, frequentemente trimestralmente ou mensalmente, e não existe a mesma transparência de preços que nas bolsas. As metodologias de avaliação divergentes podem exacerbar estes problemas. O caso da Pluralsight, empresa de tecnologia que acabou por entrar em incumprimento, é ilustrativo: os credores avaliaram os mesmos empréstimos de forma drasticamente diferente, com um credor a marcar a dívida a 83 cêntimos por dólar e outro a avaliar o empréstimo em 97 cêntimos.
Risco de concentração e estrutura: O crédito direto, o núcleo do crédito privado, é tipicamente estruturado com maturidades mais curtas de cinco a sete anos e características de taxa flutuante. Os investidores são compensados com prémios de iliquidez de 300 a 500 pontos base acima da dívida pública comparável. Mas a assunção subjacente é que este rendimento extra compensa não apenas os desafios de liquidez e transparência, mas também os riscos de crédito, estruturais e sistémicos.
No centro da avaliação dos pequenos investidores deve também estar bem presente os casos negativos, porque nem tudo são histórias de sucesso nos mercados privados. Recentemente, a BlackRock enfrentou perdas significativas no seu negócio de crédito privado após uma alegada fraude de 500 milhões de dólares. O caso sublinha as vulnerabilidades num mercado onde a due diligence pode ser insuficiente e onde a falta de transparência pode esconder problemas durante demasiado tempo.
A recente sucessão de incumprimentos em empresas financiadas por fundos de crédito privado fez soar os primeiros alarmes que nem tudo corre bem. A Pluralsight, uma plataforma de formação em tecnologia financiada por Vista Equity Partners e que recebeu financiamento de gigantes do crédito privado como Blue Owl, Ares, Oaktree e BlackRock, tornou-se emblemática das dificuldades do setor. A empresa enfrentou competição acelerada no espaço de educação digital e, com taxas de interesse elevadas, tornou-se insustentável garantir o pagamento da sua dívida de 1,3 mil milhões de dólares.
Outro caso emblemático foi a queda da First Brands, uma fabricante americana de componentes automóveis, que consolidou o seu crescimento através de aquisições financiadas com dívida sofisticada e estruturas de financiamento «fora do balanço», incluindo factoring de faturas e financiamento de cadeias de abastecimento, colapsou em setembro com cerca de 10 mil milhões de dólares em passivos -- alguns deles ocultos e potencialmente duplicados. Os investigadores descobriram possíveis casos de múltiplas cedências de créditos, sugerindo fraude.
Destaque também para a Forever 21, a gigante de fast-fashion, que regressou à insolvência em março deste ano -- a segunda vez em seis anos -- com um passivo de mil milhões de dólares. A empresa tinha sofrido perdas superiores a 400 milhões de dólares em três anos e estava projetada a perder 180 milhões de dólares em 2025.
Para os pequenos investidores, os mercados privados podem ser uma adição valiosa a um portefólio diversificado de longo prazo -- aquela fatia de 20% proposta por Fink -- mas apenas para quem compreende verdadeiramente em que se está a meter. Não é uma aposta rápida. Não é um atalho para a riqueza. É sim um compromisso de 10, 15, 20 ou mais anos, depositando capital numa máquina que, diferentemente das bolsas tradicionais, não oferece um painel de controlo transparente ou a capacidade de "bater a tecla" para sair quando o pânico bater à porta.
Termos neste artigo
Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.