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Reduzir despesas não exige rever a vida inteira. Entre a conta do supermercado, o crédito à habitação e os contratos da luz e das telecomunicações, há escolhas que merecem um segundo olhar.
Em setembro de 2026, os combustíveis ficaram 15,3% mais caros, segundo o INE, e puxaram a inflação para 3,61%, o valor mais alto em três anos. Em outubro, o gás natural no mercado regulado subiu 6,4%. Depois de uma inflação média de 2,4% em 2024 e de 2,3% em 2025, o salto apanhou muitas famílias desprevenidas.
E chega a orçamentos que já tinham pouca margem. Metade dos agregados declarou até 1.102 euros brutos por mês em 2024, segundo um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Com um rendimento assim, uma subida de 3,61% nos preços obriga a escolher o que se deixa de pagar.
No segundo trimestre de 2026, as famílias pouparam 12,1% do rendimento disponível, menos do que os 12,4% do trimestre anterior, porque o consumo cresceu mais depressa do que o rendimento. E os depósitos a prazo pagavam, em agosto, uma média de 1,11%, menos de um terço da inflação.
Mas antes de pensares onde pôr o dinheiro a render, tens de o encontrar. E ele costuma estar em despesas que saem da conta sem que ninguém as tenha escolhido. É aí que entra este kit.
1. Começa pelo extrato
Abre o extrato da conta da família do último mês e sublinha três tipos de movimentos: os que se repetem, os que já não reconheces e os que voltarias a pagar se tivesses de decidir hoje.
Se tiveres paciência, junta os dois meses anteriores, porque há cobranças trimestrais ou anuais, como seguros, anuidades e subscrições, que um único mês não mostra. Vão aparecer aplicações, seguros duplicados, ginásios que ninguém frequenta e plataformas de streaming cujas séries já viste todas.
O streaming é um bom exemplo. Segundo o Eurostat, cerca de 22% dos portugueses com internet tinham pelo menos uma subscrição paga de filmes, séries ou desporto em 2025. Somando os planos base das principais plataformas de vídeo e música (Netflix, HBO Max, Disney+, Prime Video, Apple TV+, SkyShowtime e Spotify Premium), chega-se a cerca de 54 euros por mês, ou 650 euros por ano. Poucas famílias terão todas, mas bastam duas ou três esquecidas para a conta se notar. Cancelar uma de dez euros por mês são 120 euros por ano.
O extrato também dá uma ideia mais fiável do que gastas do que a memória, que costuma esquecer os pagamentos pequenos e automáticos. Não precisas de classificar cada despesa. Basta saber quais podem mudar.
Faz a conta em percentagem do rendimento. Em média, as famílias portuguesas poupam cerca de 12 euros por cada 100 que entram em casa. Numa casa com 1.500 euros líquidos por mês, cortar 30 euros em cobranças que ninguém usa equivale a dois pontos percentuais de poupança, um sexto do que, em média, se consegue guardar.
2. No supermercado, baixa o olhar
Os alimentos continuam a pesar muito no orçamento. O cabaz de 63 bens essenciais acompanhado pela DECO PROteste custava 253,99 euros na semana de 14 a 21 de outubro de 2026: mais 12,16 euros do que no início do ano e 35% acima de 2022. Neste cabaz, tudo conta, da marca à embalagem e à prateleira onde o produto está.
Vários estudos sobre comportamento de compra apontam o nível dos olhos como a posição que mais vende. Numa análise a supermercados canadianos, os cereais menos saudáveis tinham 2,9 vezes mais probabilidade de estar à altura dos olhos. E há quem pague por esse lugar: os fabricantes admitem pagar aos retalhistas taxas para garantir espaço na prateleira.
As marcas mais caras e mais rentáveis costumam ficar à altura dos olhos e nas pontas dos corredores. As opções mais baratas, as marcas próprias e as embalagens maiores aparecem mais abaixo ou mais acima. Não quer dizer que o mais barato esteja sempre em baixo, mas vale a pena olhar antes de pores o artigo habitual no carrinho.
Compara o preço por quilo ou por litro, que está na etiqueta, e não o preço da embalagem. Um pacote de arroz de um quilo pode parecer mais barato e sair mais caro ao quilo do que o de dois. Nas promoções, faz outra pergunta: comprarias este produto, nesta quantidade, se não houvesse desconto?
3. Renegocia a televisão, a internet e o telemóvel
O pacote de telecomunicaç ões é uma das despesas fixas que mais cresce sem ninguém decidir. As campanhas acabam, o desconto desaparece e a mensalidade sobe. A renegociação deve começar pelo que a família usa e só depois chegar ao preço.
A Digi, a Amigo e a Uzo, por exemplo, anunciavam em outubro de 2026 televisão a partir de 22 euros por mês com internet fixa, e 25 euros com um plano móvel. Não é a melhor oferta para todos, mas serve de termo de comparação. Antes de ligares, faz duas coisas:
- —Abre a fatura. Os operadores têm de indicar a data em que termina a fidelização e quanto custa cancelar nessa data. A fidelização máxima é de 24 meses, e os operadores são obrigados a ter também ofertas sem fidelização. Saber isso dá-te poder negocial.
- —Conhece o custo de sair. Nos contratos feitos desde novembro de 2022, a penalização não pode passar o menor de dois valores: a vantagem recebida, proporcional ao tempo que falta, ou uma percentagem das mensalidades em falta (50% no primeiro ano, 30% no segundo). A ANACOM dá um exemplo: com uma instalação oferecida de 300 euros, uma mensalidade de 50 euros e seis meses por cumprir, pagarias 75 euros, não os 90 dos 30% das mensalidades. Às vezes, mudar compensa o custo.
Quando ligares, diz o que queres manter: os canais que vês, os cartões móveis de que precisas e a velocidade de internet que usas. Pede o preço total desse conjunto, sem extras, e pergunta o que acontece quando o desconto acabar. Antes de aceitar, pergunta se a proposta renova a fidelização.
Uma oferta aceite por telefone pode prender-te mais 24 meses, e a confirmação chega no resumo do contrato por e-mail ou SMS. Lê esse documento antes de responder e confirma o preço, a duração do desconto e a data de fim da fidelização. Em contratos feitos por telefone ou online, tens 14 dias para desistir sem justificação.
4. Muda de fornecedor de eletricidade
A eletricidade é talvez a despesa da casa em que a concorrência mais trabalha a teu favor. Mudar de comercializador não custa nada, não tem limite de vezes e é o novo fornecedor que trata de tudo, incluindo o fim do contrato anterior. O processo demora, em regra, cerca de cinco dias úteis, no máximo três semanas, sem corte no fornecimento. Só precisas do Código de Ponto de Entrega (CPE), que está na fatura.
A escolha é grande. No terceiro trimestre de 2026, a ERSE contava 22 comercializadores com ofertas para clientes domésticos e até 321 ofertas para os consumidores tipo. As diferenças de preço compensam a comparação.
Antes de assinar, confirma a fidelização. Nos contratos de eletricidade, só pode existir se estiver associada a uma vantagem, tem um limite de 12 meses para consumidores, não se renova automaticamente e o contrato tem de indicar a penalização. Muitos comercializadores não têm fidelização em potências até 20,7 kVA.
Repara também na potência contratada, que pagas todos os dias, consumas ou não. Uma potência acima do necessário encarece a fatura, e o simulador de potência da ERSE estima a adequada aos equipamentos que usas ao mesmo tempo.
Se a família tem poucos recursos, verifica a tarifa social. O acesso depende de prestações sociais ou de um rendimento anual até 6.272,64 euros, mais 50% por cada pessoa do agregado sem rendimentos. O titular do contrato tem de ser o beneficiário, a casa tem de ser a habitação permanente e a potência não pode passar os 6,9 kVA. A atribuição é automática e todos os comercializadores a aplicam.
5. Fala com o banco sobre o crédito da casa
Falar com o banco sobre o crédito à habitação não tem de ser um bicho de sete cabeças. O banco tem tanto interesse em manter um bom cliente como tu em pagar o menos possível. E, com a Euribor a subir, a conversa é oportuna.
A taxa de juro média dos novos créditos à habitação subiu de 2,81% em março para 3% em agosto de 2026, segundo o Banco de Portugal. Se pensas fixar a taxa, compara com os 3,83% a que, em média, se fixaram os novos contratos em agosto.
O primeiro passo é o teu banco. Podes pedir a alteração do spread, do indexante, do regime de taxa, do prazo ou da modalidade de reembolso. O banco tem de concordar, mas não pode cobrar comissão pela renegociação nem obrigar-te a comprar outros produtos. O segundo passo é pedir propostas a outros bancos. Podes transferir o crédito a qualquer momento, com dez dias úteis de aviso.
Para comparar, pede a Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) e olha para a prestação, o spread, a TAEG, o montante total imputado ao consumidor (MTIC), os seguros e os produtos exigidos. Cuidado com o alargamento do prazo: baixa a prestação, mas aumenta o total de juros.
Se prevês dificuldades em pagar, fala com o banco antes de falhar uma prestação. Tens dez dias para entregar os documentos pedidos e o banco, em regra, 15 dias para propor soluções. A Rede de Apoio ao Cliente Bancário, do Banco de Portugal, é gratuita.
6. Revê o seguro de vida do crédito
O prémio do seguro de vida do crédito sobe todos os anos, apesar de a dívida descer todos os meses, porque o risco associado à idade pesa mais do que a redução do capital. Aos 50 anos podes pagar mais do que aos 40, devendo bastante menos.
Os bancos não te podem obrigar a contratar o seguro na seguradora do grupo. Podes escolher outra ou apresentar um seguro que já tenhas, desde que cumpra os requisitos mínimos. Também podes mudar a meio do contrato. Várias seguradoras e mediadores anunciam reduções "até 60%" fora do banco.
Mas há outra conta a fazer. Alguns bancos dão um spread mais baixo a quem tem o seguro com eles. A pergunta é se o que ganhas na bonificação é maior do que o que pagas a mais no seguro. Ao fim do primeiro ano, vale a pena levar ao gestor uma proposta de troca: muitos bancos não agravam o spread, mas alguns sim. Pede sempre confirmação escrita das condições depois da substituição.
A troca faz-se em poucos passos: pedes a cotação com as mesmas coberturas, confirmando que o banco é o beneficiário irrevogável e que o capital seguro cobre a dívida, envias a nova apólice ao banco e esperas a resposta, que costuma demorar cerca de três semanas. Faz coincidir o início da nova apólice com o fim da antiga, avisa a seguradora anterior por carta com 30 dias de antecedência e cancela o débito direto.
Atenção a duas coisas. Uma nova apólice implica um novo questionário de saúde, mas se superaste uma doença grave estás protegido pelo direito ao esquecimento. E pede sempre a projeção dos prémios até ao fim do contrato, porque o mais barato no primeiro ano pode ficar mais caro depois.
7. Acaba com a comissão de manutenção de conta
A comissão de manutenção é uma das despesas bancárias mais difíceis de justificar. Pagas todos os meses para ter uma conta aberta, mesmo que só sirva para receber o ordenado e pagar contas. Há bancos, sobretudo digitais, que já não a cobram, mas a maioria cobra.
Há uma solução que todos os bancos são obrigados a oferecer, embora não a divulguem: a conta de serviços mínimos bancários. É uma conta à ordem com os mesmos serviços em todos os bancos: cartão de débito, multibanco na União Europeia, homebanking, balcão, depósitos, levantamentos, pagamentos, débitos diretos e transferências dentro do banco, sem limite. Inclui ainda cinco transferências por mês, até 30 euros cada, através de aplicações como o MB WAY.
O custo anual não pode passar 1% do indexante dos apoios sociais: 5,37 euros em 2026, e há bancos que não cobram nada. Se pagas cinco, sete ou dez euros por mês, podes baixar para cerca de 45 cêntimos.
Para teres acesso, não podes ter outra conta à ordem em Portugal, salvo se pedires a conversão da única conta que tens. A conta pode ter mais de um titular, desde que todos cumpram os requisitos. Basta pedir o formulário ao teu banco. Antes de converter, confirma duas coisas:
- —Se tens crédito à habitação, se a bonificação do spread depende da conta, do ordenado domiciliado ou do cartão de crédito.
- —Se o teu banco já isenta a comissão a quem cumpre certas condições, como ordenado domiciliado, saldo mínimo ou débitos diretos. Se for o caso, a conta de serviços mínimos pode não trazer poupança adicional.
Termos neste artigo
- Crédito à habitação
- Inflação
- Depósito a prazo
- Seguro
- Poupança
- Euribor
- Taxa de juro
- Banco de Portugal
- Spread
- Indexante
- Prazo
- FINE (Ficha de Informação Normalizada Europeia)
- TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global)
- MTIC (Montante Total Imputado ao Consumidor)
- Risco (financeiro)
- Capital
- Serviços mínimos bancários
- Cartão de crédito
Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.
Escrito por Luís Leitão. Este artigo foi publicado originalmente no ECO a 29 de outubro de 2026.
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