O diferencial de taxas de juro ativas e passivas da banca portuguesa quase que duplicou no espaço de um ano. O mesmo é dizer que o nível da margem financeira dos bancos dobrou em um ano. Mais nenhum país da Zona Euro registou um incremento tão expressivo.
Esta dinâmica foi gerada por dois movimentos. Se, por um lado, as taxas de juro dos créditos concedidos pelos bancos (taxas ativas) aumentaram à boleia da subida mais repentina das taxas de referência do Banco Central Europeu no último ano; por outro, a remuneração dos depósitos (taxas passivas) evoluiu muito vagarosamente, com a banca nacional a colocar-se atualmente entre os cinco que pior remunera as poupanças dos seus clientes no seio da Zona Euro.
Para as famílias que continuam a depositar as suas poupanças no banco de sempre (que é a maioria), estes dados deveriam servir de alerta de que, talvez, o teu banco não esteja a tratar devidamente o teu dinheiro, as poupanças que tanto te custaram a ganhar. Mas não é isso que acontece: desde setembro do ano passado que o montante de novos depósitos a prazo dos particulares tem crescido a um ritmo médio de 7,8% por mês e apenas por uma ocasião registou uma contração (abril deste ano).
À margem destes números, conclui-se que os portugueses não se importam se os bancos pagam pouco ou muito pelas suas poupanças. Para os bancos, este é um sinal de que é escusado pagar mais pelas poupanças das famílias.
Mas estes dados dizem mais: revelam que a maioria dos portugueses preocupa-se muito pouco com o seu dinheiro e é extremamente avesso à mudança.
A passividade dos aforradores é uma maleita há muito identificada. Com exceção da corrida aos Certificados de Aforro deste ano, que levou muitas famílias a descobrirem estes títulos de dívida do Estado, poucos outros episódios são conhecidos de uma realocação das poupanças das famílias de depósitos para outros produtos financeiros.
Até mesmo no crédito à habitação continua a haver um forte avesso à mudança que, atualmente, custa anualmente milhares de euros a muitas famílias que procrastinam um telefonema ou uma visita ao seu banco para renegociar o contrato ou, "mais difícil", procurarem melhores soluções noutras instituições.
Esta passividade em relação à gestão do dinheiro está muitas vezes ligada à ideia de que os "bancos são todos o mesmo" e que, por isso, "não vale a pena perder tempo e chatear-me com burocracias."
Os que pensam assim fazem mal. Desde logo porque, nem os bancos são todos "farinha do mesmo saco" nem as ofertas de investimento e de crédito disponibilizadas às famílias são homogéneas. Veja-se, por exemplo, na remuneração dos depósitos: dos 29 depósitos que no início de junho pagavam mais que os Certificados de Aforro, nenhum era oferecido por um dos cinco maiores bancos.
E depois é bom que te "chateies" sempre para conseguires um melhor destino para o teu dinheiro. Não pelos outros, mas por ti: quanto melhor for o negócio que fizeres para as tuas poupanças, mais a tua carteira agradece e mais as tuas finanças pessoais rejubilam.
Sim, dá trabalho e cansa (e muito) escutar o teu gestor de conta a tentar persuadir-te que o melhor é deixar o dinheiro no banco de sempre e não o mudar para outro que te ofereceu melhores condições no crédito à habitação. (Mas já não te aconteceu o mesmo quando mudaste de operador de telecomunicações ou de energia?)
Sim, dá trabalho em preencher a papelada de abertura de conta numa outra instituição, porque o novo banco não te cobra comissões de manutenção de conta. Sim, dá trabalho palmilhar o mercado à procura de uma solução mais eficaz para o teu dinheiro, tanto em outros bancos como junto de outras instituições.
É verdade que tudo isso dá trabalho, mas, além de estar longe de ser um bicho de sete cabeças, no final compensa. Investigar e comparar a oferta de soluções disponíveis no mercado é o primeiro passo para tratares melhor o teu dinheiro.
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Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.