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As famílias portuguesas pouparam 26,4 mil milhões de euros em 2025 e, ainda assim, quase três em cada dez portugueses não aguentariam uma despesa inesperada sem pedir dinheiro emprestado ou ajuda. Não há erro nas contas. Há um país que guarda mais do que antes da pandemia e, ao mesmo tempo, uma parte da população para quem poupar continua a ser uma intenção, porque a casa, a comida e a luz levam mais de dois terços do que entra todos os meses.
O Dia Mundial da Poupança, que se assinala a 31 de outubro, foi criado em 1924, em Milão, quando os bancos europeus quiseram convencer famílias empobrecidas pela guerra e pela inflação a confiar-lhes o dinheiro escondido em casa. A mensagem ainda serve, mas os números de hoje pedem uma leitura menos confortável do que a habitual comparação com a média europeia.
Poupamos menos do que os europeus
A taxa de poupança chegou aos 12,3% do rendimento disponível em 2025, abaixo dos 14,3% da União Europeia e muito longe da Chéquia (19,2%), da Alemanha (18,9%) ou de França e dos Países Baixos (17,4%). Espanha ficou nos 11,9%, Itália nos 10,8% e a Grécia teve uma taxa negativa de 3,9%: as famílias gregas gastaram mais do que receberam. Em termos simples, os portugueses guardaram cerca de 12 euros por cada 100 de rendimento.
A taxa era de 7% em 2019, disparou para 12,1% em 2020 com o confinamento, caiu para 7,3% em 2022 com a inflação e voltou a subir até aos 12,9% de 2024. Em 2025 recuou para 12,3%.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos e a Pordata acrescentam um dado que passa despercebido: os 26,4 mil milhões superam o valor de 2024 em euros, mas, descontada a inflação, são uma queda real de 1%. E o segundo trimestre de 2026 trouxe nova descida, porque o consumo cresceu 2,2% e o rendimento apenas 1,7%.
Quem consegue poupar e quem não consegue
Na análise do Banco de Portugal ao inquérito à literacia financeira de 2023, 54,8% dos entrevistados diziam ter poupado no ano anterior uma parte menor do que em 2020.
O estudo "Quanto sobra ao final do mês?", da Nova SBE, foi mais longe: encontrou despesas superiores aos rendimentos em 26,5% dos agregados, com base em dados de 2022. No grupo de rendimentos mais baixos, a proporção chegava aos 59,4%. No mais alto, ficava nos 7,8%. As despesas essenciais absorviam 58,6% da despesa média das famílias e 65,2% no escalão mais baixo. Sobra pouco onde se podia cortar.
A falta de poupança também não revela indiferença pelo futuro. Na análise do Banco de Portugal, quem tinha menos rendimentos mostrava mais preocupação com o futuro e mais prudência, apesar das dificuldades em juntar dinheiro.
Em 2025, 29,2% da população vivia em agregados incapazes de suportar uma despesa inesperada, menos do que os 31,1% de 2024 e em linha com a média europeia. A Alemanha (31,9%) e Espanha (36,4%) estavam pior, os Países Baixos (15,3%) muito melhor.
Nem toda a poupança nasce de confiança. Um estudo publicado no boletim económico do Banco Central Europeu encontrou uma associação entre maior incerteza financeira, menos consumo e mais poupança. Guardar dinheiro pode refletir a possibilidade de fazer planos, mas também o medo de não os conseguir cumprir.
Uma casa valiosa não paga uma despesa inesperada
Há uma segunda face deste retrato: a riqueza que as famílias já acumularam. Portugal é um país de proprietários, com património considerável no papel e pouco dinheiro à mão.
Em 2024, a riqueza líquida média das famílias era de 278,3 mil euros, mas a mediana ficava nos 143,3 mil euros, segundo o INE e o Banco de Portugal. Os 10% mais ricos concentravam 49,7% do total, e a metade com menos ficava com 8,8%.
Os ativos reais valiam 89,3% do total, e a casa de morada, sozinha, 56,3% dessa parte. A casa própria era detida por 70,2% das famílias, com um valor mediano de 177,8 mil euros. Já a mediana dos ativos financeiros era de apenas 5,5 mil euros por agregado.
A idade também separa os orçamentos. A riqueza líquida mediana era de 35,3 mil euros nas famílias com pessoa de referência abaixo dos 35 anos, contra 186 mil euros entre os 65 e os 74 anos. Entre os mais jovens, só 38,5% eram donos da casa e 46,1% arrendavam.
E a dívida limita outra parte do rendimento: 41,7% das famílias tinham algum empréstimo em 2024, com um saldo mediano de 34,5 mil euros. Amortizar reduz obrigações futuras, mas o dinheiro usado para pagar a dívida deixa de estar disponível numa emergência.
O dinheiro está seguro, mas a perder valor
Quando há margem para juntar dinheiro, a preferência pela segurança é clara. Os depósitos, incluindo Certificados de Aforro e do Tesouro, representavam 75,4% da carteira financeira das famílias em 2024, e 86,6% diziam não querer assumir qualquer risco.
Em setembro de 2026, os depósitos dos particulares somavam 203,2 mil milhões de euros, mais 3,1% num ano. Mas ter dinheiro no banco não significa que esteja a render. Em 2023, 59,6% dos aforradores tinham mantido toda a poupança na conta à ordem ou em dinheiro vivo. Só 33,1% recorreram a depósitos a prazo ou obrigações e 7,3% a outras aplicações.
Os novos depósitos a prazo pagavam, em média, 1,63% em agosto de 2026, contra 2,18% na área do euro.
O custo de deixar o dinheiro parado vê-se numa conta simples. 10 mil euros sem remuneração, com uma inflação de 2% durante dez anos, continuam a ser 10 mil euros no extrato, mas compram o equivalente a cerca de 8.200 euros de hoje. A garantia de depósitos até 100 mil euros protege o saldo, não o poder de compra.
E a reforma?
O problema agrava-se quando o horizonte deixa de ser o próximo imprevisto e passa a ser a reforma, um prazo de décadas em que a diferença entre dinheiro parado e dinheiro aplicado se mede em dezenas de milhares de euros.
Um inquérito da ASF à poupança para a reforma, divulgado em outubro de 2026, classificou 45% dos entrevistados como tendo poupança ativa para esse fim: 28% com um produto específico e 17% através de outras soluções. Mas entre quem tinha produtos de longo prazo, 17% não estavam a fazer qualquer entrega.
Entre quem não poupa, 54,6% apontavam falta de recursos e 27% ainda não tinham pensado no assunto ou achavam cedo. Entre os reformados, 24,2% consideravam que teria sido importante e possível poupar mais. E 34,2% dos titulares de PPR não sabiam dizer que tipo de plano tinham.
Portugal tem dois problemas na reforma. Um é de rendimento, explica a maioria de quem não poupa e não se resolve com produtos financeiros. O outro é de desenho: atinge quem tem margem e adia, quem subscreve um PPR ao balcão sem saber o que comprou e quem aceita rendibilidades abaixo da inflação durante uma década. Com apenas 9% dos trabalhadores cobertos por um plano de pensões profissional, contra 21% na União Europeia, o país deixou esta decisão ao esforço de cada família.
O que fizeram outros países
No Reino Unido, 90% dos trabalhadores elegíveis, 22,6 milhões de pessoas, participavam num plano de pensões do emprego em 2025, depois da introdução da inscrição automática a partir de 2012. Na Irlanda, o MyFutureFund arrancou em janeiro de 2026: por cada três euros do trabalhador, a empresa põe três e o Estado um. Em setembro, já tinha mais de 835 mil participantes.
Os incentivos fiscais, a via preferida em Portugal, têm resultados menos convincentes. Raj Chetty e outros investigadores analisaram 41 milhões de observações na Dinamarca e estimaram que, por cada 100 euros gastos pelo Estado em benefícios fiscais à poupança para a reforma, só cerca de um correspondia a poupança nova. O resto era dinheiro que mudava de conta. As contribuições automáticas das empresas tinham um efeito muito mais forte.
Outro mecanismo evita que poupar pareça uma perda imediata de rendimento. No programa Save More Tomorrow, estudado por Richard Thaler e Shlomo Benartzi, os trabalhadores comprometiam-se a pôr de lado uma parte dos aumentos salariais futuros. Na primeira experiência, 78% aderiram e a taxa média de poupança passou de 3,5% para 13,6% em 40 meses.
Há limites. Um estudo de James Choi, David Laibson e outros, sobre nove planos norte-americanos, estimou que a inscrição automática aumentava a poupança de longo prazo em apenas 0,6 pontos percentuais, porque mudanças de emprego e levantamentos antecipados corroem o efeito.
Por isso, construir um fundo de emergência pode ser um objetivo mais próximo. Nas experiências britânicas da Nest Insight, uma poupança acessível descontada no salário, com adesão por defeito, fez a participação dos novos trabalhadores de uma empresa passar de 1 para 48 em cada 100 ao fim de quatro meses.
Em França, 83% dos cidadãos tinham um Livret A no final de 2025, uma conta de poupança regulamentada que junta segurança e acesso imediato ao dinheiro. A Comissão Europeia recomendou em 2025 a criação de contas de poupança e investimento em todos os Estados-membros.
Como aplicar isto em casa
A versão doméstica destas experiências é simples:
- —Programa uma transferência automática para o dia em que o salário entra, num valor que caiba no orçamento. Com 25 euros por mês, juntas 300 euros num ano. Com 50, 600 euros. Se precisares, podes reduzir ou suspender, mas não cries uma reserva à custa de descobertos ou de crédito.
- —Decide antes do próximo aumento que parte dele vai para a poupança, em vez de deixares o novo rendimento diluir-se no consumo.
- —Tira o dinheiro da conta à ordem. Num ensaio britânico com mais de 124 mil clientes, um simples formulário pré-preenchido fez a proporção dos que passaram para uma conta mais bem remunerada subir de 0,5% para 8,3%. A mudança é fácil, falta é fazê-la.
- —Aprende a fazer as contas. No inquérito do Banco de Portugal de 2023, só 25% dos portugueses acertaram nas perguntas sobre juros simples e compostos. Perceber a remuneração, os custos e quando podes levantar o dinheiro é o que te permite comparar propostas.
Para quem gasta mais do que recebe, nenhum automatismo substitui o rendimento em falta. Para todos fica uma pergunta mais útil do que a posição de Portugal na tabela europeia: durante quanto tempo o dinheiro que tens disponível te permitiria pagar as despesas se o rendimento falhasse? A resposta distingue uma conta com saldo de uma reserva que te deixa fazer escolhas.
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Termos neste artigo
Escrito por Luís Leitão — para o Portefólio Perfeito.
Escrito por Luís Leitão. Este artigo foi publicado originalmente no ECO a 31 de outubro de 2026.
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